Movimentos

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O Recrudescer do Nacionalismo em Moçambique

A acção colonial portuguesa em Moçambique foi marcada por uma intensa revolta cujo cúmulo ocorreu com o Massacre de Mueda a 16 de Junho de 1960. Importa, pois, analisar factores de ordem estrutural que na década de 50-60 teriam galvanizado este movimento até atingir a forma de Movimento de Libertação Nacional. Na segunda metade da década 1950 o processo de libertação em África começou a fazer-se sentir com maior impacto.

Nesta altura, influenciados pelo movimento panafricanista, destacados líderes africanos intensificaram as suas acções com vista a pôr fim à colonização dos seus países. De entre estas figuras, destacam-se Kwame N’krumah, do Ghana, Jomo Kenyatta, do Quènia, Patrice Lumumba, do Congo, Gamal Abel Nasser, do Egipto, Julius Nyerere, da Tanzania e Leopold Senghor, do Senegal. Para além da acção exercida directamente pela influência dos intelectuais africanos, pode igualmente ser mencionada a pressão exercida pela Organização das Nações Unidas, do exemplo trazido pelas independências dos primeiros países de África em 1957 (Ghana) e de políticas pró-independentistas de algumas potencias ocidentais ávidas de mercados para exportar os seus capitais e explorar matérias-primas, como foi o caso dos Estados Unidos da América.

Da influência destes factores, surgiram dois polos nacionalistas em Moçambique, uma nos centros urbanos, fundamentalmente suportadas nas artes e cultura, e outra, no meio rural, corporizada pelas associações agrícolas. No meio urbano assistiu-se à formação de várias associações que, com recurso a poesia, pintura e escultura denunciavam as atrocidades a que os moçambicanos estavam sujeitos. Foi nesta altura que alguns periódicos empenharam-se, ainda mais, em escrever artigos para chamar a atenção da comunidade internacional sobre a situação em Moçambique.

De facto, a essência do sentimento nacionalista tinha como pano de fundo a valorização da cultura africana/moçambicana. Segundo Cabaço (2010), a literatura com um carácter eminentemente “denunciador” das humilhações e brutalidades alimentava a utopia de um amanhã em liberdade. De facto, o sonho de “nação” foi ganhado forma e se massificando com os poemas de José Craveirinha, Noémia de Sousa, Rui Nogar, Kalungano, dentre outros. Mondlane (1995), faz menção do papel das artes e da cultura no movimento contestatário referindo que a reacção dos moçambicanos era expressa em canções, danças e esculturas; formas tradicionais de expressão cultural que o colonizador não comprendia e através das quais ele podia ser secretamente ridicularizado, denunciado e ameaçado. O mesmo autor traz na sua obra duas letras de canções onde a crítica às políticas coloniais está patente (Mondlane, 1995:88 e 89):
 
 No meio rural, vários camponeses organizaram-se em cooperativas na tentativa de criarem uma base de apoio mútuo na produção e comercialização de produtos agrícolas e, deste modo, melhorar a sua situação económica. Foi no seio destas associações que começaram os debates políticos e que rapidamente ganharam contornos nacionalistas. O exemplo ilustrativo é o da formação, em 1957, da Sociedade Algodoeira Africana Voluntária de Moçambique (SAAVM), que viria articular os ideais de auto-determinação entre a população da região do Planalto dos Makonde.

Segundo Mondlane (1995), as autoridades portuguesas levantaram restrições as actividades levadas a cabo pelas cooperativas o que contribuiu para que elas passassem a ter um teor marcadamente político e hostil perante a administração colonial. O aumento das restrições impostas pela administração colonial teve como consequência a emigração em massa de moçambicanos para os territórios vizinhos como a Tanzania, Rodésia do Norte, Rodésia do Sul e Niassalandia, regiões onde a actividade política dos africanos já tinha atingido alguma maturidade. Os moçambicanos emigrados, inspirados na experiência destes países formaram movimentos políticos com a finalidade de reivindicar a independência dos seus territórios.

Assim, no ano de 1960, em Salisbúria (actual Harare), no Zimbabwe foi fundada a União Democrática Nacional de Moçambique (UDENAMO). No mesmo ano, foi fundada a União Africana de Moçambique Independente (UNAMI) no Malawi, e a União Nacional Africana de Moçambique (MANU), em 1961 na Tanzania (Dove et al, 2008). No interior de Moçambique, a efervescência nacionalista atingiu um dos momentos mais altos em 1961 quando Eduardo Chivambo Mondlane, na altura funcionário das Nações Unidas, visitou Moçambique em gozo de férias. Apesar da vigilância cerrada da PIDE, Mondlane conseguiu realizar encontros com jovens nacionalistas na Paróquia da Missão Suíça do Khovo, na então cidade de Lourenço Marques. Eduardo Mondlane participou de um culto na Paróquia de Chamanculo, muito concorrida pelos jovens, que viam-no como o “farol” que os pudesse guiar nas suas pretensões.

Eduardo Mondlane, firme nas suas convicções nacionalistas, estabeleceu contactos com os vários movimentos políticos sem no entanto filiar-se a nenhum deles. Estudioso de assuntos africanos, estava convicto que maior parte das resistências africanas haviam sido derrotadas pelos europeus em virtude da falta de união. Cabaço (2010:278), refere-se a este aspecto sublinhado que

“a história das resistências ensinava que as múltiplas revoltas contra a ocupação portuguesa tinham sido derrotadas pela desunião e descoordenação entre os povos locais. Portanto, assegurar uma plataforma de unidade que permitisse a organização da confrontação com o ocupante constituía prioridade de Eduardo Mondlane (…)”.

O posicionamento de Mondlane ia de encontro com a visão de outros líderes africanos como Nkwame Nkrumah e Julius Nyerere que haviam aconselhado os movimentos políticos moçambicanos a unirem-se numa única frente. Assim, sob a iniciativa de Mondlane, a UDENAMO, MANU e UNAMI, fundiram-se, constituindo a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) a 25 de Junho de 1962, em Dar-es-Salaam, na Tanzania.
 
Nesta altura começava a fortificar-se a ideia de Unidade Nacional entre os moçambicanos. Eduardo Mondlane acreditava que só com a Unidade podia-se vencer o inimigo. A essência subjacente na ideia de Unidade resumia-se na inclusão de todos os moçambicanos numa única causa, sem olhar para a cor da pele, credo religioso, origem étnica, condição financeira, dentre outras características. Neste conceito,
 incluía-se, igualmente, a dimensão territorial. Com esta visão contrapunha-se uma das principais armas do inimigo que se baseava na ideia de “dividir para reinar”. A unidade preconizada pela FRELIMO é descrita por Cabaço (2010:278), como sendo uma

“unidade que englobasse todos os moçambicanos, sem discriminação, consubstanciada na unidade ideológica do movimento, na unidade entre os guerrilheiros e o povo, na unidade entre elites e massas, trabalho intelectual e trabalho manual, cidade e campo (…). Esta unidade forjar-se-ia na participação da libertação nacional e no comportamento quotidiano, conquistar-se-ia pela comunhão dos sofrimentos vividos, pela convergência nos propósitos da luta, pelo estabelecimento de relações de tipo novo que deveriam ultrapassar tanto a experiência colonial como a tradicional”.

Foram, efectivamente, estes os princípios que viriam a nortear todo o processo de luta do povo moçambicano para a sua libertação da dominação estrangeira.

Referências

Matusse, R.., (2015). Captura do Quartel de Omar. (Maputo: ARPAC).

Moiane, J., (2009). Memórias de um Guerrilheiro. (Maputo: King Ngungunhane Institute).

Pachinuapa, R., Liphola, M., & Tiago, P. (Eds.). (2015). Moçambique: 40 Anos de Independência e Soberania. (Maputo:Nachingwea Editores).

Pachinuapa, R. (2011). Memória das Revolução 1962 -1974. (Maputo:Nachingwea Editores).